Ontem à noite, enquanto dava o jantar ao pai, consegui desviar-me dos murros e dos pontapés. Quando o fomos deitar, contudo, não tive a mesma sorte. Entre tentativas de me beliscar, de me dar apertões e de me morder, o papá conseguiu dar-me três arranhadelas no braço!
Quando o pai está zangado faz-nos mal. Quer seja murros, pontapés, beliscões, unhadas, quando ele as pensa, cuidado quem estiver por perto. A Esperancinha não estava preparada quando ele se agarrou ao braço dela com os dentes e eis o resultado alguns dias depois.
A bolha do calcanhar no pé esquerdo está teimosa. Tenho andado a pôr alcóol, betadine e a colocar-lhe o pé em água morna com sal. Ontem foi lá um enfermeiro fazer-lhe tratamento e amanhã vai lá outra vez. Depois de tudo isto verifiquei que tem outra no pé direito! :/
Tem comido bem. Há dois dias esteve muito amarelo e sem apetite mas felizmente recuperou. Ontem foi violento. Tentou dar-me uns murros mas consegui escapar-lhes. Não escapei foi à arranhadela no braço :/
As perguntas eram umas atrás das outras e repetiam-se:
"Porque é que a Anabela não diz nada?"
"Aconteceu-lhe alguma coisa? Teve algum ataque cardiaco? Ela tem saúde?" ...
Depois tinha uns momentos de lucidez, "Ela morreu?" E chorava.
Foi francamente triste vê-lo ali, preso no corpo, a ter que reviver aquela dor sempre que se lembrava que a Anabela já não se encontra entre nós.
Trouxemo-lo até à minha casa para falarmos com o Luis. Sentámo-lo no sofá. Até correu bem. Passado algum tempo dei-lhe um pedacinho de pão com queijo que ele recebeu muito bem mas acabou por cuspi-lo todo por todo o lado.
Para o nosso pai que regressou à terra natal Quase direto para o hospital E que agora está entregue às duas muchachas A quem deu a vida junto da muchacha Que também não pára de lidar Para na doença o acompanhar.
Hoje o M. Melo olhou para mim e disse, "Estás gorda. Mas não faz mal." Achei giríssimo aquela franqueza inocente. :D
A maior de todas as dificuldades nas primeiras semanas era alimentar o pai. Ele simplesmente recusava qualquer tipo de alimento fosse sólido ou liquido e cuspia tudo para fora.
A Esperancinha tinha que o hidratar pelo recto. O pai perdeu tanto peso que já parecia um esqueleto.
Apesar de ser muito difícil colocar o pai no carro e mais ainda tirá-lo no regresso a casa, temos ido fazer os nossos passeios dominicais em família.
Domingo passado, ao tirá-lo do carro, ele agarrou-se ao braço da mãe com os dentes e mordeu-lhe com todas as forças que conseguiu encontrar na raiva que ele estava a sentir. Se não fosse a Esperancinha recorrer à tecnica de forçar a abertura do maxilar intruzindo o dedo entre os dentes molares, ele tinha-lhe arrancado a carne.
Assim que chegou ao aeroporto perguntou-me pela Anabela, "Então a Anabela, não tem dito nada?"
O desgost e a doença não lhe permitem perceber que a sua querida filha, nossa querida irmã, faleceu em 18 de Março de 2015. Parece impossível que já passou um ano; faz amanhã.
Do aeroporto até casa a viagem correu bem mas quando parámos para almoçar, ele estava muito teimoso e não havia maneira de sair do estabelecimento onde parámos para comer uma sopita.
Chegámos a casa. Ele estava ansioso. Queria as fotos da Anabela. Pôs-se a observar as fotos que a mãe tinha numa prateleira. Entretanto veridicou-se que duas das fotos tinham desaparecido. A mãe perguntou-lhe por elas e ele ficou a muito agitado a dizer que não lhes tinha mexido. Mas tinha sido ele, sim. A do Filipe estava virada ao contrário e a do Liam tinha sido tirada da prateleira. Mais tarde, apareceram entre as coisas do pai.
Entretanto caiu a noite e fomos dormir. Às seis da manhã a mãe veio chamar-me. Estava aflita. O pai estava com um comportamento estranho. Fui até a casa deles. Ele andava à deriva com um olhar vazio. Estava todo urinado em não reagia à nossa presença. Dizia palavrões, queria sair e falava noutras línguas. Pensei que ele estivesse a fazer por querer por ter vindo para Portugal contrariado.
Mudei-lhe a roupa e calcei-o. Voltei para a cama. Por volta das 8.30 da manhã ele ainda estava naquele estado. Parecia sonâmbulo. Tinha tirado as calças e andava a cuspir por todo o lado. Depois estava a fazer gestos como se estivesse a beber água duma torneira com a mão. Percebi que ele estava a delirar. Olhei para ele e perguntei-lhe o que se passava. O olhar dele mudou quando se apercebeu que eu estava preocupada com ele. Parecia estar feliz com a minha gentileza e disse, "Ok. Thank you". Ao ver que ele não estava bem, chamámos a ambulância.
Foi para o hospital onde ficou internado com um AVC grave que apanhou o cérebro dos dois lados. A médica anunciou mau prognóstico. No hospital não comia e estava muito agitado. Foi resolvida a situação com tranquilizantes e tubos inseridos no nariz para administrar a nutrição. Partilhava o quarto com outros quatro ou cinco homens, todos com doenças respiratórias. Passados alguns dias já estava afetado dos pulmões e já outras duas infeções tinham sido anunciadas: pâncreas e vesícula. "É excesso de medicação e contágio, temos que o levar para casa." disse a Esperancinha.
Contra a vontade da médica, assim fizemos. Tinha ido para o hospital com um AVC e veio de lá muito fraquinho com três infeções.
Equipámos o quarto com cama ortopédica, cadeira de rodas, e outros acessórios para cuidar dele. Contratámos a Academia da Maceira para assistência ao domicilio.
No principio, ele recusava a comida e estava frequentemente desidratado. A Esperancinha, que foi enfermeira durante doze anos, resolveu a situação introduzindo-lhe um tubo no reto com líquidos para o hidratar. Resultou! Para tratar do problema respiratório, pois o peito dele emitia sons de trator em mau estado de conservação, fizemos vapores de eucalipto, fricções de álcool e Vicks no peito e nas costas assim como outros tratamentos caseiros.
Convencê-lo a comer foi o maior de todos os desafios. Tive que apelar à minha imaginação com base no que eu conhecia dele. Cantei, dancei, disse palavrões, fiz parvoíces e consegui entrar no mundo dele cativando assim a sua atenção. Cheguei a passar uma hora e meia para ele comer seis bagos de uva, meia chávena de café e um copito de água. Mas consegui!
Quando ele já estava a mostrar sinais de progresso embora esquelético, teve um episódio em que eu pensei que fosse o S. Pedro a puxar-lhe o cordel. Estávamos ao pé dele, ele estava a dar-me murros na perna e de repente exclamou, "Matem-me!". Depois a cabeça dele virou-se para o teto, a boca toda aberta, os olhos a rebolar, a pele ficou amarela e depois cinzenta, estava gelado. Não tinha pulsação nem qualquer outro sinal de vida. Eu fui buscar o álcool porque lembrei-me de quando a minha avó da Costa tinha desmaiado alguém dizer-me para lhe friccionar o interior dos braços com álcool. Assim fizemos ao pai. Depois levámo-lo para a cama e pus sacos de água quente nos pés e nas mãos dele, soprei-lhe para dentro da boca, friccionei-lhe a testa com álcool e fi-lo cheirá-lo e, subitamente, vi a boca dele mexer. Ele abriu os olhos, olhou para mim e parecia estar a querer agradecer-me ou dar-me a conhecer que ele estava vivo. Mais uma vitória!
Com o tempo ele foi ganhando força e até a pele dele ganhou brilho. Já não parece o mesmo. Está mais forte, mais alerta e mais violento. No Domingo passado espetou uma mordidela no braço da mãe, se não fosse a Esperancinha ele arrancava-lhe a carne. Ontem deu um pontapé na cabeça da mãe. Hoje disse-me que me esfaqueava e chamou-me todos os nomes mais reles da lista dele. Eu penso que ele tem estas reações quando há alguma coisa a incomodá-lo pois ele perdeu a capacidade de raciocínio e de expressão.
Recusei que ele fosse internado nos cuidados continuados onde, supostamente, o iriam ajudar a recuperar algumas faculdades pois receio que a única forma que iriam conseguir lidar com ele seria através de calmantes e tubos para o alimentar pois duvido que estejam dispostos a cantar para ele comer e a levar pontapés, beliscões e arranhadelas.