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Regresso ao país natal

Chegada no dia 19 de Janeiro de 2016

 

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Assim que chegou ao aeroporto perguntou-me pela Anabela, "Então a Anabela, não tem dito nada?"

O desgost e a doença não lhe permitem perceber que a sua querida filha, nossa querida irmã, faleceu em 18 de Março de 2015. Parece impossível que já passou um ano; faz amanhã.

Do aeroporto até casa a viagem correu bem mas quando parámos para almoçar, ele estava muito teimoso e não havia maneira de sair do estabelecimento onde parámos para comer uma sopita.

Chegámos a casa. Ele estava ansioso. Queria as fotos da Anabela. Pôs-se a observar as fotos que a mãe tinha numa prateleira. Entretanto veridicou-se que duas das fotos tinham desaparecido. A mãe perguntou-lhe por elas e ele ficou a muito agitado a dizer que não lhes tinha mexido. Mas tinha sido ele, sim. A do Filipe estava virada ao contrário e a do Liam tinha sido tirada da prateleira. Mais tarde, apareceram entre as coisas do pai.

Entretanto caiu a noite e fomos dormir. Às seis da manhã a mãe veio chamar-me. Estava aflita. O pai estava com um comportamento estranho. Fui até a casa deles. Ele andava à deriva com um olhar vazio. Estava todo urinado em não reagia à nossa presença. Dizia palavrões, queria sair e falava noutras línguas. Pensei que ele estivesse a fazer por querer por ter vindo para Portugal contrariado.

Mudei-lhe a roupa e calcei-o. Voltei para a cama. Por volta das 8.30 da manhã ele ainda estava naquele estado. Parecia sonâmbulo. Tinha tirado as calças e andava a cuspir por todo o lado. Depois estava a fazer gestos como se estivesse a beber água duma torneira com a mão. Percebi que ele estava a delirar. Olhei para ele e perguntei-lhe o que se passava. O olhar dele mudou quando se apercebeu que eu estava preocupada com ele. Parecia estar feliz com a minha gentileza e disse, "Ok. Thank you". Ao ver que ele não estava bem, chamámos a ambulância. 

Foi para o hospital onde ficou internado com um AVC grave que apanhou o cérebro dos dois lados. A médica anunciou mau prognóstico. No hospital não comia e estava muito agitado. Foi resolvida a situação com tranquilizantes e tubos inseridos no nariz para administrar a nutrição. Partilhava o quarto com outros quatro ou cinco homens, todos com doenças respiratórias. Passados alguns dias já estava afetado dos pulmões e já outras duas infeções tinham sido anunciadas: pâncreas e vesícula. "É excesso de medicação e contágio, temos que o levar para casa." disse a Esperancinha.

Contra a vontade da médica, assim fizemos. Tinha ido para o hospital com um AVC e veio de lá muito fraquinho com três infeções.

Equipámos o quarto com cama ortopédica, cadeira de rodas, e outros acessórios para cuidar dele. Contratámos a Academia da Maceira para assistência ao domicilio. 

No principio, ele recusava a comida e estava frequentemente desidratado. A Esperancinha, que foi enfermeira durante doze anos, resolveu a situação introduzindo-lhe um tubo no reto com líquidos para o hidratar. Resultou! Para tratar do problema respiratório, pois o peito dele emitia sons de trator em mau estado de conservação, fizemos vapores de eucalipto, fricções de álcool e Vicks no peito e nas costas assim como outros tratamentos caseiros.

Convencê-lo a comer foi o maior de todos os desafios. Tive que apelar à minha imaginação com base no que eu conhecia dele. Cantei, dancei, disse palavrões, fiz parvoíces e consegui entrar no mundo dele cativando assim a sua atenção. Cheguei a passar uma hora e meia para ele comer seis bagos de uva, meia chávena de café e um copito de água. Mas consegui! 

Quando ele já estava a mostrar sinais de progresso embora esquelético, teve um episódio em que eu pensei que fosse o S. Pedro a puxar-lhe o cordel. Estávamos ao pé dele, ele estava a dar-me murros na perna e de repente exclamou, "Matem-me!". Depois a cabeça dele virou-se para o teto, a boca toda aberta, os olhos a rebolar, a pele ficou amarela e depois cinzenta, estava gelado. Não tinha pulsação nem qualquer outro sinal de vida. Eu fui buscar o álcool porque lembrei-me de quando a minha avó da Costa tinha desmaiado alguém dizer-me para lhe friccionar o interior dos braços com álcool. Assim fizemos ao pai. Depois levámo-lo para a cama e pus sacos de água quente nos pés e nas mãos dele, soprei-lhe para dentro da boca, friccionei-lhe a testa com álcool e fi-lo cheirá-lo e, subitamente, vi a boca dele mexer. Ele abriu os olhos, olhou para mim e parecia estar a querer agradecer-me ou dar-me a conhecer que ele estava vivo. Mais uma vitória! 

Com o tempo ele foi ganhando força e até a pele dele ganhou brilho. Já não parece o mesmo. Está mais forte, mais alerta e mais violento. No Domingo passado espetou uma mordidela no braço da mãe, se não fosse a Esperancinha ele arrancava-lhe a carne. Ontem deu um pontapé na cabeça da mãe. Hoje disse-me que me esfaqueava e chamou-me todos os nomes mais reles da lista dele. Eu penso que ele tem estas reações quando há alguma coisa a incomodá-lo pois ele perdeu a capacidade de raciocínio e de expressão.

Recusei que ele fosse internado nos cuidados continuados onde, supostamente, o iriam ajudar a recuperar algumas faculdades pois receio que a única forma que iriam conseguir lidar com ele seria através de calmantes e tubos para o alimentar pois duvido que estejam dispostos a cantar para ele comer e a levar pontapés, beliscões e arranhadelas.

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